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Cultura  •  Literatura

Manuscrito perdido de Machado de Assis é encontrado no Rio

Descoberta foi feita em arquivo particular de família carioca; especialistas confirmam autenticidade de 38 páginas inéditas. Texto pode ser uma novela inacabada do escritor, escrita entre 1899 e 1903.

Por Beatriz Dantas  •  Rio de Janeiro 05/05/2026  •  07h30
Livros antigos
Páginas manuscritas foram encontradas dentro de um livro de capa dura na biblioteca da família — Foto: André Coelho/O Diário

Pesquisadores da Academia Brasileira de Letras anunciaram nesta terça-feira (5) a descoberta de um manuscrito inédito de Machado de Assis, em sua maioria escrito a punho do autor. As 38 páginas foram encontradas no arquivo particular da família Saraiva Pinto, no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro — região em que o escritor viveu por décadas. Especialistas em paleografia e literatura confirmaram a autenticidade após cinco meses de análise.

O texto, intitulado provisoriamente "Memórias de um Estranho", parece ser uma novela inacabada, com cerca de doze mil palavras. A trama gira em torno de um juiz aposentado que resolve revisitar antigas decisões judiciais — em particular, uma sentença que condenou injustamente um homem pobre. A escrita carrega o tom irônico e o pessimismo lúcido típicos da fase madura de Machado.

Como foi a descoberta

O manuscrito estava encadernado dentro de um exemplar de "Quincas Borba", edição de 1900. A obra fazia parte da coleção de Otaviano Saraiva Pinto, advogado e amigo de Machado, que morreu em 1919. As páginas foram encontradas pela bisneta dele, a historiadora Lúcia Saraiva Pinto, durante a catalogação do acervo, doado à Academia em 2024 mas só agora minuciosamente revisado.

É raríssimo. Só conhecemos quatro manuscritos completos do Machado em arquivos públicos. Encontrar um inédito em 2026 é como descobrir uma carta perdida de Borges. — José Ramos Tinhorão, presidente da Academia Brasileira de Letras

A análise de autenticidade envolveu três frentes. A primeira foi grafológica: o cotejo da caligrafia com cartas conhecidas do autor, apoiado em microscopia e exames espectrográficos da tinta. A segunda, paleográfica e textual, comparou estruturas sintáticas e marcas linguísticas — Machado tinha hábitos peculiares, como usar dois travessões em sequência para indicar interrupção brusca. A terceira, contextual, buscou referências cruzadas em diários e cartas de personagens próximos.

Quando o texto foi escrito?

Os pesquisadores acreditam que a redação ocorreu entre 1899 e 1903. Há referências a um relógio de bolso comprado em 1898 e a uma tipografia da Rua do Ouvidor que fechou em 1904. Outro indício é a temática: o juiz, narrador da novela, expressa desconforto crescente com sentenças passadas, em paralelo às reflexões machadianas presentes em "Esaú e Jacó", de 1904.

"O Machado de 1900 já era um homem que olhava para trás. Esse texto se encaixa na fase em que ele balança contas, simbolicamente, entre o que escreveu e o que viveu", afirmou ao Space Liberdade a professora Marisa Lajolo, da Unicamp, que participou da equipe de avaliação.

Próximos passos

A Academia Brasileira de Letras assumirá a guarda física do manuscrito e pretende publicar o texto em edição comentada, em parceria com a Companhia das Letras, ainda neste segundo semestre. O lançamento incluirá fac-símiles, análise crítica e reprodução de cartas e fragmentos relacionados. Antes disso, a Cinemateca Brasileira fará um documentário sobre o processo de descoberta.

Para os pesquisadores, o achado é também um lembrete dos limites da literatura brasileira. "Existem outros papéis circulando por aí, em casas, sótãos, arquivos esquecidos. Talvez Machado, talvez Lima Barreto, talvez João do Rio. A literatura nacional tem uma memória mais frágil do que gostaríamos", concluiu Lúcia Saraiva Pinto, em entrevista por telefone.

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